A decisão do governo dos Estados Unidos (EUA) de classificar facções criminosas brasileiras como terroristas levanta preocupações sobre a soberania do Brasil. Especialistas em geopolítica e relações internacionais avaliam que essa medida é reflexo da nova doutrina do governo Donald Trump para a América Latina, que propõe uma “soberania limitada” aos países da região.
Analistas acreditam que a decisão visa subordinar as decisões do Brasil aos interesses de Washington, podendo servir como pretexto para intervenções políticas. O professor de relações internacionais da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Borba Casella, aponta que a classificação pode permitir que Trump adote ações semelhantes às que foram realizadas contra o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores, sequestrados em Caracas em janeiro.
“O enquadramento como organização terrorista, pela lei americana, permite que o governo dos EUA ataque agentes de tais entidades, sem necessidade de declaração de guerra, nem autorização do Congresso dos EUA”, afirma Casella.
O cientista político Francisco Carlos Teixeira da Silva argumenta que a decisão é parte da “doutrina da soberania limitada”, que tem sido aprofundada pelo governo Trump. Segundo ele, os EUA estabelecem que os países da América Latina possuem soberania limitada em função dos interesses americanos, podendo intervir sempre que considerarem necessário.
Em novembro de 2025, o governo Trump divulgou a nova Estratégia Nacional de Segurança Nacional, que define que os EUA devem afirmar sua “proeminência” na América Latina. Teixeira enfatiza que o objetivo de Washington é quebrar a independência dos países e reafirmar a hegemonia dos Estados Unidos nas Américas.
Além da Venezuela e Cuba, o historiador Teixeira menciona o México, onde facções como o cartel de Jalisco foram classificadas como terroristas. Após essa classificação, os EUA enviaram uma equipe da CIA ao país sem a autorização do governo mexicano, o que gerou descontentamento.
O professor de economia internacional da UFRJ, Luiz Carlos Prado, afirma que a decisão do governo Trump, apoiada por grupos políticos no Brasil, impõe uma soberania limitada ao país. Ele argumenta que essa designação pode ser usada para identificar outros grupos internos no Brasil, incluindo movimentos sociais, como apoiadores do terrorismo, sem a necessidade de apresentar provas.
“Os EUA podem, de alguma maneira, designar ou indicar que determinados grupos internos, por razões políticas, dão apoio a essas organizações, agora consideradas terroristas por Washington”, comenta Prado.
Além disso, o professor ressalta que essa decisão amplia a margem de manobra e pressão sobre o Brasil, refletindo a tradição americana de justificar intervenções com argumentos que não podem ser comprovados.



