Medicina integrativa – o caminho do meio

Medicina integrativa – o caminho do meio

Depois de décadas se ignorando mutuamente, a medicina ocidental e a oriental estão cada vez mais integradas. Bom para os pacientes, que podem se beneficiar do que cada uma tem de melhor a oferecer.

Luiz Guilherme Correa era médico há 27 anos quando começou a ter um problema crônico de hipertensão, importante fator de risco para doenças cardiovasculares. “Tentei tratar de várias maneiras, sem resultado. Decidiu, então, recorrer à ayurveda, sistema medicinal criado na Índia há pelo menos 5 mil anos. “Fiquei surpreso. Resolvi a situação em três meses, com algumas plantas medicinais e uma dieta.” A experiência não mudou apenas sua pressão arterial, mas toda sua vida profissional.

Ele foi para a Índia estudar o assunto e criou uma clínica especializada em São Paulo. Divide seu tempo entre as aulas que dá na Faculdade de Medicina da USP, bastião da medicina convencional, e consultas na clínica. Correa representa as duas faces de uma moeda que, aos poucos, pode transformar a medicina. De um lado, pacientes insatisfeitos com as limitações dos tratamentos convencionais. De outro, o interesse cada vez maior dos profissionais de saúde em expandir seus horizontes de tratamento.

O resultado dessa busca de pacientes e médicos por opções toma forma no que hoje se chama medicina integrativa ou complementar. Ela soma o conhecimento médico convencional no Ocidente a práticas criadas há milhares de anos no Oriente, em geral, e que ainda hoje os leigos chamam de “medicina alternativa”.

O conceito de integração se refere tanto a essa conciliação de antigos opostos como a um conceito comum entre as abordagens tradicionais: “Elas tratam o ser humano como um todo, e não em suas partes”,diz Correa. Ao contrário dos médicos ocidentais, que se especializam em corações ou esqueletos ou cérebros, os orientais nunca perdem de vista que corpo e mente são uma coisa só. “Esse processo começou há muitas décadas, com estudos sobre a interação entre corpo e mente, mas ninguém dava importância para isso”, diz Plínio Cutait, mestre reiki e coordenador do Programa de Cuidados Integrativos do hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Os dois extremos começaram a se aproximar mais nos anos 80, com a criação de núcleos dedicados ao assunto em universidades e hospitais dos EUA e da Inglaterra, e ganhou força de vez com a criação do Consórcio de Centros de Saúde Acadêmicos de Medicina Integrativa, em 1999.

O trabalho de Cutait num hospital que é referência no tratamento de câncer no Brasil é um sintoma de que essa tendência também chegou por aqui. E ela não está se popularizando apenas em hospitais privados. O governo federal lançou uma Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, para incentivar o uso dessas abordagens no País. O objetivo dela é deixar claro para os profissionais de saúde que essas práticas são importantes”, diz Heider Aurélio, diretor de Atenção Básica do Ministério da Saúde.

O orçamento da pasta para essa área ainda é pequeno, mas cresceu nos últimos anos. O número de estabelecimentos no Brasil que oferecem serviços como homeopatia, acupuntura, meditação e fitoterapia pulou de 517 para 3.972. Mas essa expansão não é livre de resistências.

“Essas mudanças causam desconforto. Os médicos percebem que existem outros jeitos de fazer o que eles aprenderam na escola”, diz o sociólogo da Universidade de Campinas Nelson Barros, que pesquisa a introdução de práticas integrativas em centros de saúde brasileiros. Num de seus estudos, os alunos de medicina da Unicamp foram questionados se a homeopatia deveria ser ensinada no curso.

O resultado foi positivo: 52% deles disseram que sim. Numa segunda fase, os alunos que responderam que não foram questionados sobre seus porquês. Eles alegaram que ela não tem evidências de eficácia – uma premissa falsa. “O ponto de vista deles não tinha fundamento. Era um preconceito”, diz Barros.

Essa resistência tem raízes culturais e de mercado. As práticas que hoje são chamadas de integrativas tiveram um grande boom de popularidade a partir da década de 1960, quando eram “alternativas”. O problema é que, nessa época, esse termo era associado à contracultura e ao grupo que melhor representava essa revolução de comportamento: os hippies. “A adoção gradual dos termos integrativo e complementares foi uma tentativa de dissociar essas práticas desse contexto e introduzi-las no ambiente formal da medicina”, diz Barros.

O jogo de palavras também era importante para diminuir, entre os médicos de roupa branca, a sensação de que essas práticas iriam competir com as deles. “Era muita resistência”, diz o psiquiatra e instrutor de meditação Paulo Bloise, que fundou na Unifesp o núcleo de estudos integrativos Anthropos. “A palavra alternativo significa um ou. Imagina-se que a pessoa vai tratar diabete com acupuntura e deixar a medicina convencional pra lá”, diz. “Mas a ideia é associar os paradigmas, não trocar um pelo outro. Usar acupuntura e medicina ocidental.”
A MESMA MOEDA
Mas também existem bons motivos para promover esse casamento entre Ocidente e Oriente na medicina. E os maiores beneficiados são os pacientes. “Um benefício importante das práticas integrativasé enfatizar a relação médico-paciente, que estava e ainda está muito de lado na medicina convencional”, diz Bloise. Outra vantagem é que essas abordagens diminuem a quantidade de medicamentos e o custo do tratamento, além de cuidarem de outros aspectos do bem-estar do paciente que não estão diretamente ligados ao órgão doente.

Quem faz acupuntura para tratar uma dor crônica ou reduzir as náuseas de uma quimioterapia, por exemplo, leva no “pacote” menos estresse, menos ansiedade. E isso faz diferença para a saúde geral. “A pessoa com câncer não tem só um tumor. Ela está abalada emocionalmente, preocupada com família, dinheiro… Temos que lidar com essas dimensões humanas, também. Às vezes, o paciente volta para casa tenso com tudo isso, e é aí que nasce outro câncer”, diz Cutait, que lembra de outro motivo importante para a expansão da medicina integrativa: “Já existe muita pesquisa para apaziguar o coração dos médicos.

No PubMed, importante base de artigos científicos da área médica, o número de estudos publicados sobre medicina integrativa, de modo geral, aumenta exponencialmente. Na década de 2000, foram publicado quase 4 mil. Só nos últimos três anos, saíram outros 3 mil. Nem todos confirmam a eficácia dessas práticas testadas, mas é claro que o interesse crescente é sustentado por muitos resultados.

Algumas abordagens, como a acupuntura, a meditação e a homeopatia, já têm utilidade comprovada no tratamento de uma grande variedade de doenças A medicina da energia vital Escolas orientais estão fundamentada numa visão que integra mente, corpo e espírito, e na existência  de uma energia que sustenta a vida.

fonte superinteressante

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