Economistas apontam que a combinação de taxa Selic elevada e spreads bancários altos tem ampliado o endividamento das famílias brasileiras, cenário que levou o governo federal a iniciar, nesta semana, o programa Novo Desenrola Brasil, focado na renegociação de dívidas.
Selic e spread pressionam as contas domésticas
Segundo dados do Banco Central, o spread bancário chegou a 34,6 pontos percentuais (p.p.) em março, ante 29,7 p.p. no mesmo mês de 2025. O Banco Mundial calcula uma média global de cerca de 6 p.p., evidenciando o descompasso brasileiro.
A professora de Economia da Universidade de Brasília (UnB), Maria Lourdes Mollo, explica que “quanto maior a Selic definida pelo Banco Central, maiores são os juros cobrados pelos bancos das famílias”. Para ela, a precarização do mercado de trabalho após a reforma trabalhista de 2017 agrava a necessidade de crédito para complementar o orçamento familiar.
Endividamento bate recorde
Pela quarta vez consecutiva, o porcentual de famílias endividadas alcançou novo recorde, atingindo 80% em abril, de acordo com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Entre os que ganham até três salários mínimos, 83,6% possuem dívidas e 38,2% estão com contas em atraso.
Brasil lidera ranking de spread bancário
Levantamento da World Open Data, com números de 2024, coloca o Brasil no topo mundial do spread bancário, à frente de República Tcheca, Sudão do Sul e outros. A professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), Juliane Furno, observa que os bancos justificam a margem alta citando a inadimplência, “mas é possível dizer que a inadimplência é alta porque os juros também são elevados”.
No crédito às pessoas físicas, a taxa média cobrada pelos bancos ficou em 61% ao ano em março; para empresas, 24%. O rotativo do cartão de crédito ultrapassa 400% ao ano, configurando o juro mais alto do mercado.
Taxa de juros reais elevada
Com 9,3% ao ano, o Brasil possui a segunda maior taxa básica de juros real do mundo — atrás apenas da Rússia (9,6%) e à frente do México (5,0%), indica o site especializado Moneyou. Na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), a Selic foi reduzida em 0,25 p.p., para 14,5% ao ano, patamar ainda considerado elevado por parte dos analistas.
Novo Desenrola Brasil
A nova etapa do programa de renegociação de dívidas terá duração de 90 dias, oferecendo descontos de até 90%, juros reduzidos e possibilidade de uso do FGTS para abater débitos. A iniciativa abrange famílias, estudantes e pequenos empreendedores, com o objetivo de restabelecer o acesso ao crédito e aliviar o orçamento doméstico.
O governo espera que a liberação de recursos, somada à redução de parcelas em atraso, contribua para reativar o consumo e, consequentemente, a atividade econômica.
Com informações de Infonet
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