Conseguir o primeiro emprego sempre foi um marco importante para os adolescentes nos Estados Unidos. Tradicionalmente, essa experiência incluía atividades como trabalhar em sorveterias, caixas de lojas, limpar mesas em restaurantes, operar brinquedos em parques de diversão ou atuar como salva-vidas. Para muitos, esse primeiro salário simbolizava independência e uma porta de entrada para o mercado de trabalho.
No entanto, o cenário atual está mudando rapidamente. Neste verão, os adolescentes americanos enfrentam um dos piores mercados de trabalho das últimas décadas. Projeções da empresa Challenger, Gray & Christmas indicam que cerca de 790 mil adolescentes serão contratados entre maio e julho de 2026. Embora o número pareça significativo, representa uma queda importante em relação aos números anteriores: 801 mil vagas no verão passado e 1,077 milhão em 2024. Isso significa que o mercado perdeu quase 290 mil oportunidades sazonais para jovens em dois anos, uma redução de cerca de 27%.
As razões para essa diminuição não se resumem ao aumento do tempo que os jovens passam em redes sociais ou em atividades extracurriculares. Mudanças profundas na economia americana estão impactando o cenário laboral. A automação está eliminando várias funções tradicionalmente ocupadas por adolescentes, como atendimento ao cliente, pedidos em restaurantes e tarefas administrativas simples, que agora estão sendo substituídas por tecnologia. Hoje, é comum ver restaurantes com totens digitais para pedidos, supermercados com autoatendimento e sistemas automatizados em hotéis.
Outro fator relevante é a competição entre adolescentes e adultos por essas vagas. O relatório aponta que trabalhadores mais velhos estão permanecendo mais tempo no mercado e adiando aposentadorias, impulsionados pela inflação elevada e pelo aumento do custo de vida. Isso significa que empregos que antes eram dominados por jovens agora atraem candidatos mais experientes, com muitas empresas preferindo essa mão de obra, já que acreditam que exigem menos treinamento.
Um dado que chamou a atenção foi a queda de 70% nas contratações no setor de entretenimento e lazer, que historicamente empregava muitos adolescentes. Esse segmento inclui parques temáticos, hotéis e centros recreativos, e a redução nas contratações é atribuída ao aumento dos custos operacionais.
Entretanto, nem tudo é negativo. Alguns setores ainda estão contratando jovens, com destaque para a função de salva-vidas, que registrou um aumento de 78% nas contratações este ano. O varejo também se mostra como uma alternativa. Dados da plataforma Revelio Labs indicam um crescimento na presença de adolescentes em lojas físicas e no comércio.
Além disso, um novo caminho se abriu para os jovens: os aplicativos de trabalho sob demanda. Jovens entre 17 e 25 anos estão se tornando o grupo etário que mais cresce nessas plataformas. Aplicativos como Uber e DoorDash registraram um aumento de 8,4% nos cadastros da geração Z em relação ao ano anterior. Isso representa uma mudança significativa, onde muitos adolescentes estão optando por trabalhos informais com horários flexíveis, em vez dos empregos tradicionais de verão.
Especialistas acreditam que essa nova realidade pode transformar a relação da geração atual com o trabalho, que agora começa com um aplicativo aberto no celular, em vez de um uniforme em um restaurante.
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