A diplomacia brasileira, historicamente reconhecida por sua prudência e negociação, enfrenta um momento de transformação significativa. Desde os tempos do Império, o Brasil construiu uma política externa pautada pela autonomia e pelo multilateralismo, evitando conflitos ideológicos. No entanto, essa tradição pode estar em risco.
Para compreender a magnitude dessa mudança, é importante considerar eventos históricos, como a Revolução Islâmica no Irã em 1979, que resultou na queda do regime do xá Reza Pahlavi. O novo governo liderado por Ruhollah Khomeini estabeleceu uma política externa hostil ao Ocidente, especialmente aos Estados Unidos e a Israel, uma postura que recebeu apoio de setores da esquerda mundial na época.
Com o passar dos anos, o Irã tornou-se visto por muitos movimentos progressistas como um ator capaz de desafiar a influência americana no Oriente Médio. Apesar das violações dos direitos humanos e da repressão a minorias, a retórica antiocidental do regime ressoou com parte da esquerda internacional.
A relação entre governos de esquerda na América Latina e o Irã se intensificou, com países como Venezuela, Bolívia e Nicarágua firmando acordos com o regime iraniano, em busca de apoio econômico e político em meio a sanções internacionais.
No Brasil, essa conexão tem raízes que remontam aos anos 1980, quando autoridades investigaram contatos de dirigentes do Partido dos Trabalhadores com representantes do regime iraniano. Com a ascensão de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência, essa relação se formalizou, destacando visitas e acordos polêmicos com líderes iranianos.
Em 2023, o governo brasileiro permitiu a atracação de navios de guerra iranianos no Porto do Rio de Janeiro, mesmo diante de pressões diplomáticas dos Estados Unidos. Este gesto foi interpretado como um sinal de alinhamento com Teerã em um contexto global tenso.
Outro momento simbólico ocorreu durante a cúpula do Brics em 2023, quando o Irã foi convidado a se juntar ao bloco, uma decisão que ampliou a aliança com países como Rússia e China, considerados hostis ao Ocidente.
A nova postura da diplomacia brasileira foi evidenciada ainda mais em 2025, quando, sob a presidência do Brasil, a declaração final do Brics condenou ataques ao Irã sem citar os responsáveis. Lula enfatizou que o regime iraniano não seria pressionado a alterar suas posições sobre questões como Gaza.
Recentemente, após ataques ao Irã em 28 de fevereiro de 2026, o governo brasileiro condenou as ações, defendendo a soberania iraniana e uma solução diplomática para o conflito, o que foi recebido com gratidão pelo embaixador iraniano no Brasil.
Para os Estados Unidos e Israel, qualquer aproximação do Brasil com Teerã representa um risco geopolítico, dado que o Irã é considerado um dos principais patrocinadores de grupos armados no Oriente Médio e mantém um programa nuclear que preocupa as potências ocidentais. A mudança na diplomacia brasileira, ao se afastar da neutralidade tradicional do Itamaraty, levanta questões sobre o futuro das relações internacionais do país.
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